Diálogos de um desastre: discursos e lógicas de poder no processo de reparação dos danos gerados pelo rompimento da barragem da Samarco

  • Diovana Renoldi Vieira UFES

Resumo

O desastre tecnológico gerado pelo rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco, em 05 de novembro de 2015, trouxe a debate problemáticas diversas as quais a sociedade contemporânea vivencia diariamente, como por exemplo a intensificação da produção social de riscos atrelada aos processos produtivos tecnológicos e industriais, bem como a incapacidade dos atores estatais em prevenir tais ocorrências e gerir o caos quando este surge de forma inesperada. Cada vez mais comuns, os desastres são fenômenos com origem no próprio sistema social e que são também produtores de rupturas no funcionamento social. O caso em análise desencadeou uma série de danos ambientais, sociais, econômicos e políticos, envolvendo uma multiplicidade de atores – comunidades atingidas, empresas responsáveis, órgãos governamentais e outras instituições não governamentais, civis, acadêmicas, etc. – em busca do tratamento dos problemas gerados. Tal cenário configura-se como uma complexa rede sustentada por relações sociais assimétricas em recursos materiais e simbólicos, que refletem uma luta hegemônica no campo social em torno da legitimação de discursos, na qual cada ator se esforça para que o seu discurso alcance o lugar do “consenso” entre as partes. Nesse contexto, este estudo pretende problematizar as lógicas de poder e as narrativas discursivas desse campo de forças – formado por múltiplos agentes e interpretações – que se estabelecem nos processos de reparação e reconstrução dos danos gerados pelo rompimento da barragem de Fundão (MG).

Referências

ALMEIDA, R. O uso da entrevista na pesquisa empírica. In: Métodos de pesquisa em Ciências Sociais: Bloco Qualitativo. São Paulo: Sesc São Paulo/CEBRAP, 2016. p.60-72. Amplo Engenharia e Gestão de Projetos Ltda. (AMPLO). Relatório de Impacto Ambiental - RIMA - EIA integrado do Complexo Germano. Belo Horizonte: Amplo, 2017.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

BRASIL. Governo Federal, Governo do estado de Minas Gerais, Governo do estado Espírito Santo e as mineradoras Samarco Mineração S/A, Vale S/A e BHP Billiton Brasil Ltda. Termo de transação e ajustamento de conduta – TTAC, homologado em 02 de março de 2016. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/cif/ttac>. Acesso em: 05 abr. 2018.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Comissão Externa do Rompimento de Barragem na Região de Mariana – MG. Relatório Final. 12 de maio de 2016. Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1457004>. Acesso em: 15 maio 2018.

COMITÊ INTERFEDERATIVO (CIF). Deliberação nº 01, de 04/05/2016. Brasília: CIF, 2016a. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/cif/deliberacoes>. Acesso em: 15 maio 2018.

COMITÊ INTERFEDERATIVO (CIF). Deliberação nº 07, de 11/07/2016. Brasília: CIF, 2016b. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/cif/deliberacoes>. Acesso em: 15 maio 2018.

DELEUZE, G. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988.

FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

FOUCAULT, M. (1979) Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

________. (1995). O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H. L.; RABINOW, P. Michel Foucault, uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

________. (2003). A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

________. (2004). A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: FOUCAULT, M. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

________. (2006). Diálogo sobre o poder. In: Foucault, M. Estratégia, poder-saber. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p.253-266.

FUNDAÇÃO RENOVA. Estatuto da Fundação Renova. Belo Horizonte, 28 junho de 2016. Disponível em: . Acesso em: 10 jun. 2018.

FUNDAÇÃO RENOVA. Conheça nossos programas. Disponível em: <http://www.fundacaorenova.org/conheca-os-programas>. Acesso em: 13 maio 2018.

GIDDENS, Anthony. Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.

IBAMA. Laudo Técnico Preliminar: Impactos ambientais decorrentes do desastre envolvendo o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais. 26 nov. 2015. Brasília: Ibama, 2015.

LIMA, M. O uso da entrevista na pesquisa empírica. In: Métodos de pesquisa em Ciências Sociais: Bloco Qualitativo. São Paulo: Sesc São Paulo/CEBRAP, 2016. p.24-41.

QUARANTELLI, E. L. A social science research agenda for the disasters of the 21 st century: theoretical, methodological and empirical issues and their professional implementation. In: R. W. Perry; E. L. Quarantelli (eds). What is a Disaster? New answers to old questions. USA: International Research Committee on Disasters, 2005. p.325-396.

RIBEIRO, M. J. Sociologia dos desastres. In: Revista Sociologia – problemas e práticas, n.18. CIES/ISCTE, 1995. p.23-43.

SANTOS, R. S. P.; WANDERLEY, L. J. Dependência de barragem, alternativas tecnológicas e a inação do Estado: repercussões sobre o monitoramento de barragens e o licenciamento do Fundão. In: ZONTA, M.; TROCATE, C. (orgs.). Antes fosse mais leve a carga: reflexões sobre o desastre da Samarco/Vale/BHP Billiton. Marabá - PA: iGuana, 2016. p.87-139. (Coleção A Questão Mineral no Brasil, v.2).

SILVA, J. V.; ANDRADE, M. J. Introdução. In: Bruno Milanez e Cristiana Losekann. (Org.). Desastre no Vale do Rio Doce: antecedentes, impactos e ações sobre a destruição. Rio de Janeiro: Folio Digital - Letra e Imagem, 2016. p.23-35.

SILVA, M. Z. A Vale do Rio Doce na estratégia do desenvolvimentismo brasileiro. Vitória: EDUFES, 2004.

SORIANO, É.; VALENCIO, N. Riscos, incertezas e desastres associados às barragens: os riscos referentes à Itaipu Binacional. In: VALENCIO, N.; SIENA, M.; MARCHEZINI, V.;

GONÇALVES, J. C. Sociologia dos Desastres: construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: Rima Editora, 2009. p.146-159.

ZHOURI, A.; VALENCIO, N.; OLIVEIRA, R.; ZUCARELLI, M.; LASCHEFSKI, K.; SANTOS, A. F. M. O desastre da Samarco e a política das afetações: classificações e ações que produzem o sofrimento social. Ciência e Cultura, v. 68, n. 2, 2016. p.36-40.